Trocos de consciência
Vez ou outra, andando pela rua, uma pessoa pede-me dinheiro. Toma-me de surpresa — típica de quem não pisa tanto as ruas — e sou invadido por um instintivo horror às suas ofertas. Recuso com a mesma expressão afobada que uma presa usaria para recusar ser devorada, caso um predador tivesse a delicadeza de consultá-la antes do fim. Antes mesmo de deixá-la para trás, amargo a culpa por não ajudá-la.
Algum tempo depois, vem-me um segundo. Muitas vezes sem nem mesmo desejar vender-me algo. Mas meu corpo, temperado pela primeira interação, dá-me as rédeas. Este segundo arranca-me um bom dinheiro, pois realmente acho que pouco me atrapalhará dá-lo e muito poderia ajudá-lo.
Quando meus recursos tocam a mão do afortunado pedinte, meu coração dispara. Toma-me a ideia de que alguém virá ao meu encontro após um passo ou dois - ou doze, ou duzentos, pois assim a tortura prolonga-se - e dirá que é tudo um experimento. A minha primeira recusa será esmiuçada diante de todos para revelar todo tipo de preconceito que, se eu facilmente poderia jurar não tê-los, não poderia negar a sua revelação naquele ato: por que um e não outro? Quem é você para julgar os que merecem, se poderia ter dado para ambos? Era por ser isso? Era por ser aquilo?
Concluo, então: ou nunca mais darei dinheiro a ninguém, ou darei a todos, mesmo que tenha que comprar as coisas mais abomináveis. Ou talvez entregue-o todo ao próximo que me pedir e diga: "agora é você que decide e, veja, eu mesmo acabei de entregar-lhe todo o meu dinheiro, não tenho como voltar para a minha casa; poderia ajudar-me com o que for?".